ACOLHIMENTO PELA LÍNGUA

Como a UEMS tem ajudado estrangeiros a se adaptarem ao Brasil

Sábado, 06|jul|2019

ACOLHIMENTO PELA LÍNGUA

Como a UEMS tem ajudado estrangeiros a se adaptarem ao Brasil

Pertencimento. (Pertencer + -mento) substantivo masculino que deriva do verbo intransitivo Per·ten·cer |ê|, que entre seus muitos significados traz a definição de “Formar ou fazer parte” e “Ser parte integral de”. Falar de pertencimento diante da maior crise de migração desde a II Guerra Mundial parece contraditório: de um lado está esse sentimento envolto por laços de amor pelo lugar que se vive e do outro a necessidade de sair desse mesmo local por que ali não há mais condições de se viver.

Relatos apontam que no final da II Guerra Mundial aproximadamente dois milhões de pessoas estavam fora de suas regiões de origem. Os números são controversos mas acredita-se que o número de refugiados na época era de oito a 70 milhões, dependendo da fonte consultada.

Fonte: http://diversitas.fflch.usp.br/node/2180#sdfootnote4sym. Acesso em: 26 de junho

Migração e Pertencimento não são sinônimos e nem de longe antônimos. Descobrimos ao longo da coleta de informações e entrevistas para essa reportagem que essas duas palavras caminham juntas na luta pela sobrevivência impulsionadas ‘por um querer’ por algo melhor, ‘por um querer’ uma vida melhor, ‘por um querer’ pertencer e ser por completo.

Na Pré-História, o pertencimento a um lugar, uma região, não fazia parte do cotidiano dos nômades que viviam da caça e coleta e migravam constantemente para explorar outras paisagens. Essa forma de viver foi ficando para trás com a Revolução Agrícola que trouxe meios de sobrevivência fazendo com que fosse possível a fixação dos indivíduos em um único lugar. Todavia, hoje poucos povos cultivam essa forma de viver, preferindo explorar e se mudar constantemente.

Quem não faz parte dessa cultura de nomadismo, da migração constante, se apega a uma região, ao seu País, o que gera o sentimento de pertencimento. Algo tão intrínseco que nem percebemos que sentimos. Quem já passou um tempo fora do Brasil vivendo outros hábitos sabe o quanto todos os costumes do outro lugar lhe parecem estranhos. Há sempre quem volte dizendo aos quatro ventos: "Igual a comida do Brasil não tem!", ou "O brasileiro é o povo mais animado do mundo". Orgulho, pertencimento e saudade é um pouco do que carregam os migrantes mundo a fora.

Para a maioria dos brasileiros parece loucura abandonar casa, emprego, família e se mudar para um novo País onde não se fala a língua natal e não se tem nenhum vínculo. Esse cenário pode parecer distante, para um povo que nunca enfrentou uma guerra propriamente dita ou um cenário econômico tão caótico quanto de nossos vizinhos venezuelanos. Mas a Crise Mundial dos Migrantes está mais perto do que se imagina, Mato Grosso do Sul tem sido cada vez mais escolhido por migrantes para começar uma nova vida, criar novas raízes, pertencer a um novo País.

CRISE MUNDIAL DE MIGRANTES E O BRASIL

"A CADA MINUTO, 25 PESSOAS SÃO DESLOCADAS A FORÇA EM DECORRÊNCIA DE CONFLITOS OU PERSEGUIÇÕES EM SEUS PAÍSES DE ORIGEM"

Foto: Agência Reuters

Quantos de vocês que estão lendo essa reportagem tem alguma ascendência de outro país? Numa pergunta rápida descobrimos que numa sala com cinco pessoas tínhamos pelo menos 7 países representados dos mais diversos lugares, isso sem falar nos povos tradicionais indígenas. Prova que um dia nossos avós, bisavós ou tataravós migraram em busca de uma vida melhor. O mesmo sentimento que move muitos dos migrantes que vocês irão conhecer ao longo dessa reportagem.

Pela fama de povo hospitaleiro ou pela facilidade da fronteira terrestre, o Brasil está na lista de muitos migrantes, mesmo sendo considerado um país em desenvolvimento. De acordo com a ACNUR, Auto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, até o final de março de 2019 99.858 venezuelanos solicitaram asilo para o Brasil. Já o Peru recebeu até essa mesma data, 227.325 pedidos. No total, 464,229 venezuelanos pediram asilo para algum outro país (somente este ano).

Glossário da Migração

Migrante: toda a pessoa que se transfere de seu lugar habitual, de sua residência comum para outro lugar, região ou país. É um termo frequentemente usado para definir as migrações em geral. (https://www.migrante.org.br/imdh/glossario/)

Imigrante: Imigrante é o indivíduo que, deslocando-se de onde residia, ingressou em outra região, cidade ou país diferente do de sua nacionalidade, ali estabelecendo sua residência habitual, em definitivo ou por período relativamente longo. (https://www.migrante.org.br/imdh/glossario/)

Emigrante: entende-se a pessoa que deixa sua pátria e passa a residir em outro país. As regiões ou países fortemente marcados por emigração são também chamados países ou regiões de origem dos migrantes e, em certas circunstâncias, países de expulsão de migrantes. (https://www.migrante.org.br/imdh/glossario/)

Migrante econômico: é a pessoa que muda de região ou país, por vontade própria, para escapar da pobreza e em busca de melhores condições de vida. (https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/atualidades-vestibular/crise-dos-refugiados-entenda-os-principais-conceitos/)

Migração Clandestina: A expressão se refere àquelas pessoas que, independentemente da razão porque migram, entram ilegalmente, sem portar qualquer Visto ou permissão, num país diverso do de sua nacionalidade ou residência legal. Embora seja difícil individuar as motivações exatas que induzem as pessoas a migrar clandestinamente, a própria realidade demonstra, de certo modo, que os migrantes assim procedem prioritariamente por motivos econômicos e movidos pela necessidade, em busca de emprego, de saúde, muitas vezes de oportunidades para estudar, para unir-se a familiares que residem no país, para fugir de situações de violência ou devido a violações dos direitos humanos, e, acima de tudo, sonhando sempre com melhores condições de vida. Leis restritivas e medidas excludentes por parte dos países acentuam significativamente o universo de migrantes clandestinos e migrantes em situação irregular ou ilegais. É comum usarmos como sinônimos os termos: clandestino, ilegal, estrangeiro em situação irregular ou indocumentado. Não o são. Insiste-se, até mesmo por questões de considerar o estado emocional e a dignidade do ser humano, na distinção entre as várias situações. Em breves palavras, clandestino é o que entra num país sem portar Visto ou autorização para tal. Ao passo que, ilegal é o estrangeiro que se encontra num país em condições não condizentes com a legislação daquele país, embora, não necessariamente tenha entrado de forma clandestina. E, indocumentado ou em situação irregular, é o que não providenciou sua documentação ou que, após haver entrado legalmente no país, ali permaneceu além do período de autorização que recebera. (https://www.migrante.org.br/imdh/glossario/)

Migrante Forçado: É assim chamado o que migra para um país que não o de sua nacionalidade ou residência por causas alheias à sua vontade. A origem destas causas pode ser econômica, política, social, desastres naturais, busca de sobrevivência. A Igreja denomina a estes migrantes de “refugiados de fato”. (https://www.migrante.org.br/imdh/glossario/)

Refugiado: São pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados. (https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/refugiados/)

Solicitante de Refúgio: São pessoas que solicitam às autoridades competentes serem reconhecidas como refugiado, mas que ainda não tiveram seus pedidos avaliados definitivamente pelos sistemas nacionais de proteção e refúgio. No final de 2016, cerca de 2,8 milhões de solicitantes de refúgio aguardavam uma decisão que poderia mudar suas vidas. (https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/solicitantes-de-refugio/)

Deslocados internos: São pessoas deslocadas dentro de seu próprio país, pelos mesmos motivos de um refugiado, mas que não atravessaram uma fronteira internacional para buscar proteção. Mesmo tendo sido forçadas a deixar seus lares por razões similares às dos refugiados (perseguições, conflito armado, violência generalizada, grave e generalizada violação dos direitos humanos), os deslocados internos permanecem legalmente sob proteção de seu próprio Estado – mesmo que esse Estado seja a causa de sua fuga. (https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/deslocados-internos/)

Apátrida: São pessoas que não têm sua nacionalidade reconhecida por nenhum país. A apatridia ocorre por várias razões, como discriminação contra minorias na legislação nacional, falha em reconhecer todos os residentes do país como cidadãos quando este país se torna independente (secessão de Estados) e conflitos de leis entre países. A apatridia, às vezes, é considerada um problema invisível, porque as pessoas apátridas muitas vezes permanecem invisíveis e desconhecidas. Elas podem não ser capazes de ir à escola, consultar um médico, conseguir um emprego, abrir uma conta bancária, comprar uma casa ou até se casar. (https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/apatridas/)

Retornados: São pessoas que tiveram o status de refugiados e solicitantes de refúgio, e que retornam voluntariamente a seus países de origem. Para muitos dos que foram forçados a fugir, voltar para casa significa o fim de um tempo muitas vezes traumático no exílio. (https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/retornados/)

Proteção temporária: A proteção temporária foi proposta em razão de fluxos de emergência de refugiados em diversos países devido a guerras civis e outras formas de violência generalizada. É uma forma provisória de proteção que deve evoluir para uma situação duradoura. Por meio de sua utilização, os governos podem inicialmente evitar proceder a uma análise individual (que é simultaneamente morosa e cara) de grandes fluxos de pessoas deslocadas. A maior parte dos esquemas de proteção temporária oferece refúgio a todos os que fogem de zonas de conflito generalizado ou de abuso dos direitos humanos. Nesta proteção incluem-se pessoas consideradas refugiadas nos termos da Convenção de 1951. Esta forma de proteção não deve se prolongar no tempo. Para aqueles que fogem de situações de violência generalizada, a proteção temporária pode ser suspensa, com o acordo do ACNUR, quando o regresso se tornar seguro. Aos beneficiários de proteção temporária não são, por vezes, concedidos todos os direitos sociais dos refugiados (tais como pagamentos de segurança social ou o direito a trabalhar). (https://www.acnur.org/portugues/dados-sobre-refugio/perguntas-e-respostas/#tempor%C3%A1ria)

A recente crise de imigrantes na América Latina é apenas uma fatia do que acontece no Mundo. A cada minuto, 25 pessoas são deslocadas a força em decorrência de conflitos ou perseguições em seus países de origem. E quando esses números são somados, o resultado chega a milhões. Até o final de 2018 mais de 70,8 milhões de pessoas tiveram que sair de suas casas, desses, 67% são habitantes de cinco nacionalidades: República Árabe Síria, Afeganistão, Sudão do Sul, Myanmar e Somália. E entre os países que mais tem acolhido a população de refugiados estão Turquia, Paquistão, Uganda, Sudão e Alemanha. A maioria, países fronteiriços com o país dos refugiados.

Seja pela situação econômica, política, por conflitos ou perseguições, uma dificuldade que a maioria dos migrantes ao redor do mundo tem ao chegar num novo país é a língua.

UEMS ACOLHE

Com o objetivo de ensinar e acolher por meio da língua portuguesa, o projeto de extensão nasceu na UEMS, em 2017, e já atendeu migrantes de 34 países

Há dois anos uma família internacional começou a se formar nos corredores da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), na unidade de Campo Grande, capital do Estado que tem como símbolo gastronômico da cidade um prato de origem chinesa: o sobá. E é nessa terra que abraçou o tereré e a chipa, ambos de origem paraguaia, e o sobá, que nasce o projeto de extensão “Português para Estrangeiros” por meio do Neppe (Núcleo de Ensino e Pesquisa de Português para Estrangeiros), com o objetivo de ensinar e acolher por meio da língua portuguesa.

De 2017 para cá, o projeto cresceu, ampliou suas abordagens e se tornou UEMS Acolhe, sem perder a essência principal que é receber e abrigar quem veio de outro País por meio da língua portuguesa. Quem conta toda essa trajetória é o professor doutor João Fábio Sanches Silva.

O professor de língua portuguesa, Vinicius Ezaú Loose, é voluntário do projeto desde fevereiro e conta que as aulas seguem o padrão do Neppe de Brasília, sendo adaptadas à realidade campo-grandense:
– Nós adaptamos com o nome de ruas, de centros culturais e ambientes de Campo Grande, para que eles se familiarizem melhor, se adequem melhor a este contexto que eles estão vivendo, para que seja atendido as expectativas deles aqui com relação ao geográfico, histórico e cultural da cidade – explicou o professor.

MAPA UEMS ACOLHE

Desde 2017, o Projeto “Português para estrangeiros” do Neppe já atendeu 171 migrantes. Sendo 25 pessoas em 2017, 44 pessoas em 2018 e 102 pessoas no primeiro semestre de 2019. Os migrantes atendidos são de 34 Países espalhados por todos os continentes.(Passe o mouse em cima dos países destacados no mapa)

DA VENEZUELA PARA O MUNDO

Hoje estão espalhados pelo mundo mais de 3,4 milhões de venezuelanos, os dados são da ACNUR e da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Em 2018, a média de habitantes que deixou o país a cada 24 horas era de cerca de 5 mil pessoas. Os refugiados e migrantes da Venezuela buscam abrigo na maioria das vezes no país vizinho, Colômbia (mais de 1,1 milhão) e também no Peru, que já recebeu mais 506 mil venezuelanos. Na sequência estão Chile (288 mil); Equador (221 mil); Argentina (130 mil); e Brasil (96 mil). Países da América Central e Caribe também recebem um número significativo de refugiados e migrantes venezuelanos.

Mas vamos sair dos números e entender o que motiva milhares e milhares de venezuelanos a deixarem suas casas todos os dias. No UEMS Acolhe é crescente o atendimento à essa população.

Conhecemos nas aulas, a Dinorá e o filho dela Daniel de 9 anos, eles estão no Brasil há 2 meses. O marido da Dinorá também veio. Eles saíram de Maracay, as margens do Lago Valencia na região centro-norte da Venezuela, uma cidade que nas palavras de Dinorá perdeu as cores nos últimos meses.

No país de origem, Dinorá, era gerente administrativa em uma indústria têxtil e aqui está em busca de emprego, mas para conseguir uma oportunidade a primeira barreira é a língua:

– Como ainda me custa muito falar português, muitas portas se fecham. E por isso estou aqui no Neppe para abrir as portas – explica.

O filho da Dinorá, Daniel, já está na escola e tem aprendido o português lá e no projeto também. No dia da nossa entrevista ele tinha acabado de aprender o som das letras NH, na palavra cozinheiro (a) e também o Ç da palavra garçom. O progresso no aprendizado do filho é um dos sonhos da Dinorá, que quer que o pequeno cresça feliz sem a barreira do idioma e que seja um homem de bem.

Um futuro melhor para a família é o que deseja também o aluno do projeto, José Romero, que tem formação em Contabilidade e durante toda vida trabalhou em uma indústria de macarrão. Ele, a esposa, a filha e o neto saíram de Puerto La Cruz, no litoral da Venezuela, atravessaram o País e entraram no Brasil pela fronteira de Pacaraima, no estado de Roraima. Mais de 5 mil quilômetros depois, chegaram até Campo Grande, onde estão há 4 meses. Eles vieram amparados por uma Igreja que ajudou nesse translado. Ele ainda não conseguiu emprego, a expectativa agora é com a validação dos certificados e diplomas. Já que para legalizar os títulos profissionais é preciso pagar algumas taxas, mas segundo seu José eles tem feito o possível para começarem uma nova vida no Brasil.

Todos na família estão no curso do Neppe. No aprendizado da língua portuguesa, o mais difícil está sendo aprender o som das letras com o sotaque brasileiro. José brinca que aqui no Brasil mudaram o nome dele, se referindo ao som do ‘J’ de José que na Venezuela tem um som que para nós lembra o ‘R’. Ainda hoje quando o chamam pelo nome em voz alta, José custa a entender que é ele. Brincadeiras à parte, o curso do tem ajudado a Família Romero a decifrar o Brasil e seus costumes.

MIGRAÇÃO
EM BUSCA DE OPORTUNIDADE

Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7,0 na escala Richter causou grandes estragos no Haiti. O País é um dos mais pobres da América e está localizado numa ilha dividindo o território com a Republica Dominicana no mar do Caribe. Além de uma economia vulnerável, os desastres naturais deixaram o país numa situação difícil. O cenário econômico não melhorou com o passar dos anos, as oportunidades de emprego foram ficando cada vez mais escassas, foi diante dessa situação que Audiney Toussaint migrou do Haiti para o Brasil há quase cinco anos.

Quando chegou teve aulas de português em uma Igreja Católica e no início de 2019 ingressou no projeto do Neppe. As familiaridades das línguas francesa e portuguesa ajudaram Audiney na pronúncia das palavras, mas em terra de "brazucas" nem tudo é o que parece, como explica o aluno do projeto.

Hoje Audiney trabalha em um hotel em Campo Grande, como garçom.

Quem também veio em busca de mais oportunidades é a colombiana, Marta Yorladis Rave Sanchez, que conta que primeiro veio a filha em busca de trabalho e depois toda família veio atrás de melhores condições. Mas a adaptação não foi fácil, vencer a barreira da língua foi desafiante.

Há cinco anos em Campo Grande já conheceu outros colombianos e se reúnem sempre que podem e fazem muita festa. A animação do povo colombiano é contagiante, não é à toa que Marta sente falta das festividades no País de origem. Hoje ela atua na mesma área que trabalhava na Colômbia, oferecendo serviços como barbeira, maquiadora e massagista. Se antes tinha vontade de voltar para o País de origem, hoje já se sente em casa no Brasil.

MIGRAÇÃO POR AMOR

Ah, o amor... ♥ ♥ Faz as barreiras, fronteiras, divisas, línguas diferentes, culturas e quaisquer outras dificuldades que possam existir se tornarem coisas em segundo plano.

NA GARUPA

Foi este forte sentimento que fez com que nutricionista, Karen Tapia, mexicana, deixasse seu país e cruzasse a américa latina com seu amor em uma moto.
Tudo começou há quase dois anos, quando um amigo argentino de Karen entrou em contato com a jovem mexicana dizendo que ia passar por sua cidade rumo aos Estados Unidos. O amigo estava fazendo uma viagem de motocicleta e perguntou se o amigo brasileiro que o acompanhava também poderia ficar na casa dela.
Ela concordou. A nutricionista mexicana e o motociclista brasileiro trocaram números de Whatsapp e continuaram conversando. Meses depois quando o brasileiro retornou dos EUA em viagem, passou novamente na casa de Karen e fez uma proposta:
- Vamos embora comigo?
O coração bateu rápido! Karen deixou tudo, subiu na garupa da moto com o amado e viajaram por um ano do México até Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.

Há quatro meses no Brasil ela já se acostumou um pouco com a língua, mas achou que nunca fosse aprender:
- A primeira vez que escutei o português eu não entendi nada. E pensei que jamais ia entender e muito menos falar. Foi difícil, porque as vezes falavam algo e eu não entendia, agora já tento falar, mas as vezes não me entendem. Então fico desesperada porque quero me comunicar e não consigo 100%.
Enquanto aguarda o processo de reconhecimento do diploma de nutrição, Karen já conseguiu um emprego como caixa de um supermercado:
- Estou gostando porque estou com muito contato com os clientes e pratico um pouco mais o português. Também sou aluna do curso de Português na UEMS, gosto das aulas porque são dinâmicas, tem o apoio didático, mas não fica só no livro, você pratica, conversa e assim aprende mais.

AMOR TRANSCULTURAL

Um amor transcultural... foi o que sempre sonhou o servidor público, Alex Silva. Diferente do motociclista brasileiro que foi longe encontrar sua amada mexicana, Alex encontrou a boliviana Noemi Malale Semo durante um evento universitário, em Corumbá, cidade sul-mato-grossense na fronteira com a Bolívia.
Noemi foi convidada por uma amiga de São Paulo para participar do evento e palestrar sobre suas experiências na Bolívia. Após a palestra, Alex procurou Noemi curioso para saber mais sobre a Bolívia e ficaram amigos. Ela o convidou para conhecer o seu país e Alex aceitou. Foi conhecer a Bolívia e chegando lá já se declarou para a amada, a pedindo em namoro. Noemi e Alex se casaram e vieram morar no Brasil.

Eu sou o marido de um casamento transcultural, que eu sempre quis, sempre me motivei a ter um casamento assim. E no caso dela ela veio para o Brasil por amor a mim, veio por que casou comigo, ela quis isso. Então ela não veio de uma guerra, não veio porque não tinha emprego, ela tinha tudo e mudou por minha causa. Então para mim como pessoa eu sinto uma responsabilidade muito grande – conta Alex.

Há pouco mais de um ano no país, Noemi conheceu o projeto da UEMS num folheto que estava na Polícia Federal, quando o casal foi pedir o visto permanente de Noemi.
- A princípio foi muito difícil, porque eu não falava na de português, dizia apenas “olá”, “obrigada”. Eu gosto de conversar com as pessoas, mas as vezes ficava um pouco calada, isso era triste para mim. Meu plano é trabalhar com meus conhecimentos em saúde – eu sou Enfermeira. Trabalhei na Bolívia em uma instituição de cardiologia.

Alex sentiu a dificuldade de se estar num país onde não sabia a língua quando visitou a Bolívia, por isso passou a participar das aulas do UEMS Acolhe junto com Noemi.
- Eu sou responsável por fazê-la vir e o curso foi para mim uma revelação, de ver uma realidade que eu não estou acostumado, porque eu vejo muitas pessoas migrarem por outros motivos e a minha esposa é de uma outra situação e eu tive que acompanhá-la, tive que estar ao lado dela para incentivar, pois as vezes ela não queria ir para o curso. O contato com outros imigrantes do projeto me trouxe mais maturidade como pessoa e não só o idioma. Tudo isso foi um enriquecimento, a gente ganhou muito! – destacou Alex.

DO VIRTUAL PARA O REAL

A internet possibilita encurtar distâncias, faz o planeta se tornar uma comunidade. E assim foi que o tunisiano, Ramy Basti, se apaixonou por uma brasileira e decidiu morar mais de 9 mil km longe de sua terra natal, cerca de 36h de voo até Campo Grande.

Nas redes sociais eles se comunicavam em inglês ou gestos (já que Ramy fala inglês, francês e árabe). Antes de se conhecerem, ele estudou um pouco de português, mas foi só vindo morar no Brasil que conseguiu melhorar sua pronúncia. Concluiu recentemente o curso de "Português para Estrangeiros" na UEMS e aprendeu um pouco mais de gramática.

Com esposa e dois filhos brasileiros, Ramy Basti pensa em voltar para a Tunísia somente para rever os parentes:

- Quero voltar para a Tunísia, tenho mãe, pai, irmãos, amigos – tudo está lá. Mas não é para morar, porque tenho esposa e dois filhos. Migrei por amor, por paixão! Eu vim por causa da minha esposa, fora isso eu nunca ia conhecer o Brasil, é muito longe!

Há 4 anos em meio em terras brasileiras se adaptou bem ao português e conseguiu emprego seis meses após chegar em Campo Grande. Trabalhou anteriormente em dois hotéis e hoje é repositor em uma empresa. Na Tunísia – que fica no continente africano – foi sargento do exército e cursou medicina veterinária.

Além da mudança de idioma, Ramy também teve que se adaptar aos costumes brasileiros.

AMOR DE FAMÍLIA

Essa última história de amor é diferente das outras. É amor em família, o amor entre pais e filhas.

Rosa e Paulo Yasunaka, brasileiros descentes de japoneses, saíram do Brasil em 1992 rumo ao Japão em busca de trabalho. E ao longo do tempo a família foi crescendo... lá tiveram três filhas Letícia (19 anos), Larissa (16 anos) e Raíssa (13 anos), que nasceram no Japão, mas foram registradas como brasileiras.

A princípio a mais velha, Letícia, foi estimulada a falar português, contudo com a rotina de estudos, das 7h às 18h30, longe dos pais, a menina se adaptou ao japonês. Com o nascimento das outras irmãs, o japonês se tornou natural no convívio e na comunicação familiar.

Em maio de 2018, se mudaram novamente para o Brasil para ficarem mais próximos dos familiares. Foram dois e retornaram cinco, agora com as três sorridentes filhas. As meninas, super apegadas a mãe, não a perdem de vista nem por um momento.

- A adaptação delas foi complicada, pois aqui é totalmente diferente: o clima, as pessoas, os costumes – lá as pessoas são mais livres, aqui fica preso dentro de casa, não pode esquecer de fechar o portão e ligar o alarme. É totalmente diferente, é o contrário de lá. Mas por estar há um ano, elas estão se virando bem, aprenderam bem o português - relata a mãe.

A timidez e insegurança das meninas ao falar o português fez com que elas se sentissem mais à vontade nas aulas do UEMS acolhe, que frequentam desde o segundo semestre do ano passado:

- Elas gostam de vir e estão aprendendo, porque não tem vergonha de perguntar. Aqui todo mundo na aula não sabe a língua, porque numa sala de aula normal todo mundo vai rir dependendo da pergunta, aqui fica mais fácil para elas perguntarem sem ter vergonha - destacou Rosa.

No Brasil, apesar da diferença da cultura, elas já até aprenderam algumas músicas:

EXPANSÃO
UEMS ACOLHE

No primeiro semestre de 2019, o projeto atendeu mais de 100 alunos em 6 turmas na UEMS em Campo Grande e a programação é expandir mais. Ao longo de 2 anos e meio, foram 171 migrantes atendidos de 34 nacionalidades de quase todos os continentes. Para o próximo semestre, a previsão é começar mais 3 turmas em Campo Grande e em outros municípios do Estado.

O Projeto tem como parceiros institucionais a Fundação Social do Trabalho (Funsat) e a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho (Sedhast). Além da parceria já em andamento com a Igreja Batista Bíblica, onde existe uma turma com 19 migrantes.

- Nós buscamos a Pró-reitoria de Extensão da UEMS para fazermos uma parceria e expandirmos o Programa para as outras unidades. Até mesmo para municípios onde não tem unidade física da UEMS, mas tem um número grande de migrantes para levarmos o projeto. Temos como alvo hoje: Naviraí, Corumbá, Três Lagoas, Nova Alvorada do Sul e Itaquirai, que são cidades que tem um fluxo migratório muito grande. Sabemos que esses locais precisam de um amparo pelo menos pedagógico no ensino da língua – explica o Coordenador do Neppe João Fábio.

A ideia do Professor João Fábio é capacitar os agentes voluntários que já fazem algum trabalho de acolhimento dos migrantes nessas localidades. Assim toda expertise pedagógica do UEMS acolhe desenvolvido em Campo Grande pode ajudar esses agentes a conduzir as aulas nesses locais.

OPERAÇÃO

ACOLHIDA

Uma das parcerias do UEMS acolhe é a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que apoia mundialmente refugiados de todas as nacionalidades e já trouxe para o Brasil quase dois mil Venezuelanos, sendo cerca de 60 para o Mato Grosso do Sul (mais de 55 estão residindo em Campo Grande).

A Igreja apoia a operação Acolhida do Governo Federal, trabalhando juntamente com diversas instituições, auxiliando na obtenção da documentação brasileira (carteira de trabalho, CPF, RG), o translado para outros estados, estabelecimento e ajuda na colocação dos venezuelanos no mercado de trabalho, sejam membros da Igreja ou não.

Para o presidente da Estaca Monte Líbano da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Sérgio Bauer de Borba, a UEMS ajudará no desenvolvimento linguístico dos estrangeiros para que eles possam se recolocar no mercado de trabalho.

"Se eles fossem portugueses, por exemplo, ou se fôssemos um país de língua espanhola as pessoas não teriam dificuldade, chegariam aqui - eles têm suas habilidades - e conseguiriam se comunicar. Temos pessoas com habilidades, mas têm o entrave da língua. A UEMS é essencial por causa disso, a instituição pode ajudá-los a se desenvolverem linguisticamente. Quando começarem a falar, quando tiverem a habilidade de entender e serem entendidos, eles vão quebrar as barreiras, pois eles têm bastante vontade de trabalhar", destacou Sérgio Borba.

Um dos prédios da igreja, que fica situado no bairro Guanandi em Campo Grande, será disponibilizado para que professores voluntários da UEMS ensinem a Língua Portuguesa a estrangeiros.

UEMS ACOLHE

E A CIDADANIA

O programa hoje oferece três módulos de ensino, nos dois primeiros é a fase do ‘Módulo de Acolhimento’, na qual durante seis meses as aulas têm um papel de atendimento emergencial e afetivo do ensino da língua. No terceiro módulo, o objetivo é um atendimento com aspectos mais pontuais da língua portuguesa. A conclusão das três etapas leva 9 meses e os alunos saem das aulas dominando o português.

Agora o programa passou por uma readaptação, o projeto foi reescrito e os alunos que concluem todas as etapas do Curso "Português para Estrangeiros" recebem um certificado. O certificado fornecido pela UEMS, de proficiência da língua portuguesa, pode ser usado pelos migrantes para que eles façam o ‘Pedido de Cidadania’ na Policia Federal, esse é um dos documentos exigidos para o processo de naturalização no Brasil.

A primeira entrega de certificados foi no dia 26 de junho na UEMS Campo Grande, 40 migrantes receberam o documento de proficiência em português.

Vinicius Loose, professor voluntario no projeto, enfatiza que é transformador poder ajudar um grupo de migrantes:

- As pessoas que vem de fora precisam ser acolhidas e precisam de uma inserção social, porque há urgência e emergência que também se dá também pela língua. Estou muito feliz e grato por essa oportunidade, acho que é transformador. Nós precisamos de mais pessoas nesta causa, é muito importante - destaca o voluntário.

O sentimento de ajudar o próximo é gratificante também para o coordenador do programa, João Fábio. O professor fala do projeto com orgulho e coração cheio. O que começou com a tese de doutorado, um título acadêmico, tem se tornado quase uma missão de vida.

Migrar pode ser por busca de oportunidades, para fugir dos problemas econômicos, políticos ou até de guerra. Pode ser para viver um grande amor, para aventurar-se por culturas diferentes, para viver mais próximo dos familiares ou pela simples decisão de se mudar.

Pois mudar, reinventar, desconstruir e reconstruir é da natureza humana, mas o pertencer a um lugar é um processo mais gestacional, que leva mais tempo, alguns podem se adaptar mais rápido, outros podem levar uma vida para se sentir parte de um lugar, outros ainda nunca se sentirão pertencentes, sempre sentirão saudades de sua terra natal, de sua comida, de seus costumes..., contudo, mesmo longe sempre carregarão as marcas de suas origens:

LEI Nº 13.445, DE 24 DE MAIO DE 2017. Institui a Lei de Migração. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13445.htm. Acesso em: 24 de junho 2019.

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. "Pertencimento". 2008-2013. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/pertencimento. Acesso em: 24 de junho 2019.

AFP - Agence France-Presse. Os principais fluxos migratórios nos últimos anos. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2018/12/07/interna_internacional,1011409/os-principais-fluxos-migratorios-nos-ultimos-anos.shtml. Acesso em: 24 de junho 2019.

SASAKI, Fabio. O que você precisa saber sobre a crise dos refugiados. Disponível em: https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/aumento-de-refugiados-provoca-grave-crise-humanitaria-entenda/. Acesso em: 25 de junho 2019.

Nações Unidas Brasil. Disponível em: https://nacoesunidas.org/. Acesso em: 26 de junho de 2019.

OIM - Organização Internacional para as Migrações. Disponível em: https://nacoesunidas.org/agencia/oim/. Acesso em: 26 de junho de 2019.

ACNUR - Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Disponível em: http://www.acnur.org.br. Acesso em: 26 de junho de 2019.

EQUIPE

Editora: Eduarda Rosa
Texto: Liziane Zarpelon e Eduarda Rosa
Entrevistas: Liziane Zarpelon, Emmanuely Castro e Eduarda Rosa
Captação de vídeo e Designer gráfico: Renan Guilherme
Edição de vídeo: Tony Ângelo
Desenvolvedor web: Bruno Andrade
Tradução: Tatiane Queiroz
Apoio: Katia Juliane e Leila Machado

Realização: ACS/UEMS