Dia do Orgulho LGBTQIA+

Por: Liziane Zarpelon | Postado em: 28/06/2020

Ações acadêmicas que buscam respeito e o fim do preconceito

Em 28 de junho se celebra o Dia do Orgulho LGBTQIA+, data que marca o ativismo a essa causa que luta pelo fim do preconceito, por mais amor, respeito e mais liberdade de expressão. Atualmente a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), trabalha essa temática tão importante através de eventos, políticas inclusivas, de pesquisas desenvolvidas nos Centros de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPEX)  e também em diversos cursos de graduação e programas de pós-graduação.

CEPEGRE: Centro de Estudo, Pesquisa e Extensão em Educação, Gênero, Raça e Etnia

O CEPEGRE foi criado em setembro de 2014 e tem como objetivo geral propor, subsidiar, articular monitorar e avaliar políticas públicas e políticas de ação afirmativa, ligadas às questões de educação, gênero e sexualidade, cultura, raça e etnia, com foco no processo de inclusão para o acesso, permanência e conclusão na Educação Básica e Superior. Conheça o trabalho do CEPEGRE.

Para essa data, conversamos com a coordenadora do CEPEGRE, Prof.ª Dra. Beatriz Landa, “ a importância da temática está em propiciar um outro olhar para esta questão por meio da pesquisa e extensão, da participação e proposição de ações junto com a comunidade LGBTQIA+, como possibilidades para a construção de uma universidade e uma sociedade mais inclusivas, respeitosas, e em diálogo constante com a diversidade, para minimizar o preconceito, racismo e a discriminação que tem afetado as pessoas que produzem afetos e vidas que não se enquadram no padrão hegemônico da sociedade”, pontua.

Vinculada ao CEPEGRE está a pesquisadora e docente Anna Carolina Horstmann Amorim, que realiza pesquisa nas áreas de gênero, feminismo, lesbianidades, homoparentalidade, parentesco, educação e diversidade; e recentemente começou uma pesquisa sobre pandemia, família e pessoas LGBTs.

Em entrevista pelo WhatsApp, a pesquisadora falou um pouco sobre como suas inquietações pessoais diante da desigualdade e do preconceito a levaram para pesquisa nessa área e também como a academia pode trazer mudanças na realidade social existente.

“Sem dúvida as pesquisas científicas ajudam! Especialmente porque através delas podemos sair do senso comum e mergulhar em compreensões e conceitualizações mais abrangentes, e também científicas, a respeito da vida social (afetiva, política, educacional, sexual). Por meio destes processos de escrutínio e debate da vida social e da cultura podemos entender como e porque alguns comportamentos são validados enquanto outros são tomados como desviantes ou indesejados. Podemos compreender, igualmente, como existem particularidades em cada sociedade e como cada grupo define o que é adequado ou não a partir de regras sociais e organizacionais que são, antes de tudo, mutáveis, contingentes, sociohistoricamente definidas, sendo, portanto cabíveis de questionamento e transformação. Deste modo, através das pesquisas acadêmicas podemos entender quais são os processos determinados socialmente e historicamente que produzem preconceitos, exclusão e estereótipos relativos a determinados grupos, como os LGBTS e como podemos transforma-los, desnaturaliza-los e buscar por uma sociedade mais plural”, acrescente a pesquisadora Anna Carolina.

A professora ainda acrescenta que as pesquisas sozinhas não conseguem mudar realidades sozinhas, é preciso também o apoio das Instituições. “É fundamental que a Universidade como um todo incentive as atividades promovidas por grupos de pesquisa e centros como o CEPEGRE, que estão constantemente preocupados com a inclusão, permanência e bem-estar das pessoas LGBTs no espaço acadêmico”, finaliza.

 

CELMI: Centro de Pesquisa, Ensino e Extensão em Educação, Linguagem, Memória e Identidade

Outro Centro de Pesquisa que também tem pesquisas na aréa é o CELMI - Centro de Pesquisa, Ensino e Extensão em Educação, Linguagem, Memória e Identidade. Um dos quatro grupos de pesquisa atuantes no CELMI é o Grupo de Pesquisa: Educação, Cultura e Diversidade. A Prof.ª Dra. Léia Teixeira Lacerda responde pela Coordenação CELMI e também atua como líder do Grupo de Pesquisa: Educação, Cultura e Diversidade, juntamente com a Profa. Dra. Kátia Cristina Nascimento Figueira. Conheça o trabalho do CELMI.

A professora Léia também é docente do Curso de Pedagogia Unidade de Campo Grande e do Programa de Mestrado Profissional em Educação, ela desenvolveu sua carreira acadêmica em torno de estudos que abordam os temas de formação de professores, gênero, educação sexual, história indígena, histórias de vida e educação escolar indígena; e atualmente 

Para esta reportagem especial, a docente selecionou algumas pesquisas de seus orientados que tratam do tema. Perguntamos a ela qual a importância do preparo do futuro profissional para saber lidar com as questões de gênero e sexualidade, “Destaco que a inserção dos conteúdos de gênero nos Cursos de Pedagogia e demais licenciaturas foi regulamentada por meio da Resolução CNE/CPnº 1, de 15 de maio de 2006, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia e também instituiu a carga horária destinada aos estudos dos temas transversais. Desse modo, o art. 5º dessa Resolução reitera que o egresso do curso de Pedagogia deverá estar apto para debater esse tema, mas as pesquisas que temos desenvolvido constatam que os professores possuem muitas dificuldades para abordarem esses temas em sala de aula, tanto no que se refere às questões conceituais como também nas relações de alteridade ao fazer o exercício de se colocar no lugar do seu Outro, diante das suas identidades de gênero”, explica.

 

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Conheça algumas pesquisas que abordam a temática LGBT na educação:

 

Educação, Memória e Sexualidade: Narrativas dos Professores e Profissionais de Saúde sobre a Educação Sexual e a Formação Docente (2013)

A pesquisa foi desenvolvida no Programa de Mestrado em Educação da Unidade de Paranaíba pela hoje mestre Eliane Maria da Silva. Eliane buscou escrever o percurso de vida e formação dos profissionais de saúde e dos professores que atuaram como educadores sexuais no Projeto Saúde e Prevenção nas Escolas, desenvolvido em 25 (vinte e cinco) municípios sul-mato-grossenses e em 23 (vinte e três) escolas públicas de Campo Grande, MS. Entre suas considerações, Eliane, reforça que promover novas discussões sobre a educação sexual dentro e fora do ambiente escolar é necessário não somente para justificar as reflexões constatadas nesta investigação, mas esclarecer dúvidas e questionamentos que as crianças e os adultos possuem sobre essa temática.

 

Relação de gênero e sexualidade: narrativas de professoras e de crianças de uma escola pública de tempo integral, Goiás (2014)

A pesquisa desenvolvida no mesmo Programa de Mestrado é de autoria de Joana D’arc Moreira Alves, que buscou compreender como ocorre a constituição das relações de gênero e de sexualidade para as crianças, matriculadas no 3º ano do Ensino Fundamental que estudam em uma Escola de Tempo Integral, a fim de promover uma reflexão entre as professoras, sobre esse importante tema do desenvolvimento humano. A autora afirma que os resultados revelaram a dificuldade das professoras para abordarem os temas de gênero e sexualidade em sala de aula entre outros aspectos, mas também indicaram caminhos alternativos para a abordagem do tema. “ Por meio das práticas pedagógicas, com a finalidade de valorizar as narrativas das crianças como protagonistas da educação sexual, considerando a idade, o imaginário infantil e seus interesses sobre as relações de gênero e as vivências da sexualidade no ambiente escolar. Essas ações podem contribuir muito para a formação integral dos estudantes, pois é também um dos princípios do projeto da Escola Integral no Brasil”, relata Joana D’arc.

 

Relações de gênero e sexualidade: vozes de professores/as do 9º ano do Ensino Fundamental, Campo Grande (2018)

No Mestrado Profissional em Educação, Roberta de Souza Salgado, desenvolveu o tema acima descrito no qual elegeu as vozes de professores/as para falar sobre as relações de gênero e sexualidade, tendo em vista que considera a instituição escolar um dos espaços sociais primordiais para a construção de relações de respeito à diversidade e à diferença. “Com o resultado desta pesquisa, podemos evidenciar que os/as professores/as não receberam formação continuada que abordasse as categorias gênero e sexualidade nos últimos dez anos, o que pode indicar uma lacuna na formação continuada no município de Campo Grande, repercutindo significativamente na sua atuação docente ao planejarem abordar os conteúdos de gênero e sexualidade nas práticas pedagógicas”, explica. Roberta ainda reforça que exercer o lugar de escuta permite a empatia, que pode humanizar e desencadear reflexões sobre as situações de preconceito e discriminação no espaço escolar, tendo em vista que, o diálogo e o respeito são imprescindíveis diante das vivências relatadas pelos diferentes sujeitos sociais que frequentam a instituição escolar.

 

As relações de gênero nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental: práticas pedagógicas e vivências no cotidiano escolar (2019)

Esse foi o tema da pesquisa desenvolvido por Cristiane Pereira Lima, evidenciar como se constituem as relações de gênero em uma escola da rede pública de Campo Grande (MS). Segundo Cristiane durante sua pesquisa ela observou que há pouca produção acadêmica que envolva as crianças, o que a permitiu refletir sobre a oferta de cursos de formação continuada, especialmente no que se refere às questões que envolvem as relações de gênero. O que a levou a organizar um material divido em Itinerários do Campo Investigativo, procedimentos teóricos e ainda um registro das narrativas das crianças sobre gênero em uma sala do 2º ano do Ensino Fundamental, seus desenhos e fotos elaborados durante a produção dos dados. Cristiane também apresentou o “Projeto de mediação pedagógica: práticas pedagógicas para a educação para as relações de gênero com crianças”, no qual se destaca um momento em que apresenta o texto literário e as atividades propostas como possibilidades para o debate dessa temática no espaço escolar.

 

Vozes de estudantes do Ensino Médio sobre a LGBTfobia em uma escola estadual em Campo Grande, MS (2019)

Roselaine Dias da Silva buscou conceituar e analisar o fenômeno da LGBTfobia, a partir das experiências de violência vivenciadas por jovens lésbicas, gays, bissexuais e pansexuais no espaço escolar. Segundo a autora, a pesquisa empírica foi realizada em duas etapas, a primeira com 140 estudantes, por meio de atividades de sensibilização para a reflexão sobre a temática pesquisada; e a segunda, com entrevistas individuais com roteiro pré-estabelecido. Essa organização possibilitou a produção de dados relativos às experiências sobre as discriminações e preconceitos vividos por estudantes LGBT e por uma jovem pansexual na escola investigada. A autora afirma que as vozes dos estudantes revelam que o preconceito e a discriminação no contexto escolar são visíveis e cotidianos que, inclusive, quem não é LGBT identifica que os/as colegas sofrem a exclusão por meio de comentários, piadas, chacotas, entre outros.

 

Vozes de Estudantes e Docentes sobre Sexualidades e Homofobia na Escola: construção de um espaço de reflexão sobre sexualidades não heteronortmativas (2019)

Flávio Luiz Pezzi Gouvea em sua pesquisa destaca que a abordagem na escola de temas ligados a gênero e sexualidades, diferente daquelas que são tomadas como convencionalmente normativas, pode gerar polêmicas e desencadear reações de inquietação em determinados segmentos da sociedade. Gouvêa elegeu o referencial dos estudos pós-estruturalista e desenvolveu seis oficinas em uma turma de 20 estudantes do Ensino Médio, de 8 estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e duas professoras de uma escola pública de Campo Grande-MS. No decorrer dessas oficinas, estudantes e professores foram convidados a responderem algumas questões sobre o tema investigado. Diante do que foi observado, o autor apresentou dispositivos que precisam ser considerados quando abordados nas instituições escolares: posicionamentos contrários por parte de professores aos estudos de gênero sexualidades e homofobia; naturalização da homofobia; experiências e proximidade afetiva com LGBTI; desconhecimento sobre as questões de gênero, sexualidades e homofobia; religiosidade como eixo para ações de homofobia e indiferença.

 

Simpósio Sobre Saúde LGBTQIA+

Entre os dias 26 e 30 de junho, o grupo da Federação Internacional das Associações dos Estudantes de Medicina do Brasil (IFMSA Brazil) do Curso de Medicina da UEMS/Campo Grande organizou o primeiro simpósio on-line para tratar de questões relacionadas a saúde LGBTQIA+. O objetivo do evento, segundo a organização, é propagar conhecimentos acerca das principais facetas da saúde LGBTQIA+, abordando ações de cuidado, promoção e prevenção para acadêmicos dos cursos de saúde, profissionais da área e demais interessados.

A acadêmica de medicina, Isis Sodré, é uma das organizadoras do evento que reuniu diversos palestrantes que desenvolvem trabalhos na área. Antes mesmo do primeiro dia do evento, já tinham sido contabilizadas mais de mil inscrições de pessoas da comunidade em geral e de acadêmicos.

“ Nosso público alvo, área da saúde, ainda é muito resistente a temática; quando não é tabu, é tratado como irrelevante. Essa construção ajuda na ignorância, quebrando a relação entre profissional-paciente, o que afasta pessoas diariamente do atendimento em saúde. Mulheres lésbicas e bissexuais procuram menos ginecologistas que mulheres hétero. Pessoas trans não se sentem seguros em ambientes além de ambulatórios específicos por não receberem a atenção adequada. Nos surpreendeu muito atingir pessoas de todos os lugares do País e, principalmente, saber que muitos de fora da comunidade LGBTQIA+ se interessaram pelo evento (aproximadamente 40% do público) ”, explica a Isis.

A acadêmica ainda reforça que as discussões acerca do tema ainda hoje são escassas, e que os debates e trocas, como o proposto no simpósio, levam conhecimento para quem realmente não sabe sobre o assunto. Conheça mais sobre o Simpósio sobre Saúde LGBTQIA+, aqui.

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Conquistas Nacionais: Foi divulgado essa semana a criação do Conselho Nacional Popular LGBTI que terá a participação de 24 organizações nacionais que atuam na defesa dos direitos da população LGBTI. A missão do Conselho será construir um projeto popular amplo e democrático que fomente políticas públicas e sociais voltadas a atender a população LGBTI em toda sua pluralidade e diversidade, além de contribuir na difusão dos direitos humanos, entendendo estes como espaços de lutas e disputas de narrativas, que propiciem o empoderamento de todas as identidades LGBTI. Saiba mais AQUI.

 

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Conheça o significado dessa sigla que inspira respeito e amor

Ao longo dos anos esse conjunto de letras que inspira respeito veio sendo modificada com o objetivo de agregar cada vez mais amor. O termo começou a ser usado em meados dos anos 60, quando começaram as primeiras discussões sobre o tema. Por muito tempo, foram usadas apenas as letras GLS (Gays, Lésbicas e simpatizantes) para representar todos os indivíduos que não se encaixavam nos padrões heteronormativos. Com o passar dos anos o termo mudou para LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) e hoje em dia a comunidade usa a sigla LGBTQIA+ que abarca gênero e sexualidade.

Conhecer o significado de cada letra que compõe a sigla LGBTQIA+ ajuda a mostrar a diversidade que existe em nossa sociedade. Os significados e os termos foram pesquisados em vários sites, os mesmos também foram analisados por pesquisadores da área. Reforçamos que os termos com o passar do tempo podem mudar devida a evolução constante da construção social.

Pesquisa e criação: Tony Angelo


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