Pesquisa inédita mostra desafios do início da carreira de professores indígenas

Por: Eduarda Rosa | Postado em: 02/12/2020

Ao finalizar da graduação, os primeiros anos de atuação do profissional no mercado de trabalho trazem desafios.  Diversos estudos já foram realizados sobre o início da carreira de professores, entretanto, a docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Andréia Nunes Militão, e a egressa da licenciatura em Letras/Espanhol da UEMS, Queila Viana da Silva, indígena terena, proporam a análise da atuação de professores indígenas em início de carreira, um estudo inédito na literatura da área, realizado na Escola Estadual Intercultural Guateka Marçal de Souza - Aldeia Jaguapiru no município de Dourados/MS.

Para a pesquisa foi realizado um mapeamento da produção acadêmica sobre “professor iniciante” e não se localizou nenhum trabalho sobre “professor iniciante em escolas indígenas” ou “professores indígenas atuando em escolas indígenas e não indígenas”. “A ausência de trabalhos com esse foco amplia a importância dessa investigação, configurando um tema ainda pouco explorado. Para tratar dessa especificidade, recorreu-se ao uso de questionários e de entrevistas com professores indígenas”, ressaltam as autoras.

Dos 18 docentes da escola que responderam a pesquisa, cinco eram iniciantes na carreira. Sobre o perfil dos professores entrevistados, a pesquisa mostra que três eram pertencentes à etnia terena e dois da etnia guarani atuando na escola com vínculo empregatício celetista e/ou contratado pelo Estado de Mato Grosso do Sul. Considera-se como professor iniciante aqueles com até cinco anos de atuação. 

As autoras explicam que foram comparadas as dificuldades dos professores indígenas iniciantes que atuam em uma escola indígena, com as dificuldades dos professores iniciantes não indígenas apresentados pela literatura da área.

“Pode-se compreender algumas diferenças, relacionadas principalmente ao contexto de atuação e a inexistência, ou insuficiências das políticas específicas para essa realidade. Importante ressaltar que a inserção do professor indígena envolve além das questões recorrentes aos demais docentes, a dimensão da interculturalidade caracterizada pelas diferenças culturais e linguísticas entre seu espaço de formação na universidade, espaço de vivência na comunidade e seu espaço de atuação profissional nas escolas indígenas”, argumentam.

O estudo indica que uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos docentes indígenas no início da carreira está diretamente ligada à língua materna. Muitos dos professores, mesmo sendo indígenas, distanciaram-se de sua língua materna devido ao contato com os não indígenas ao passo que muitos alunos tem como língua materna o guarani. Acrescenta-se ainda o fato de que a língua portuguesa ser vista como uma imposição da sociedade brasileira. Essas questões criam diversos tensionamentos em torno do uso das duas línguas no processo de aprendizagem.

Observa-se, ainda, a ausência de políticas educacionais que fomentem e incentivem o ensino das línguas Guarani e Terena nas escolas indígenas brasileiras, ainda que há pouco tempo fora lançada no Brasil uma gramática da Língua Guarani, ela ainda não chegou às universidades e escolas públicas. “Acreditamos que quando ela for distribuída, isso supondo que o Ministério da Educação tenha interesse em adquirir e distribuir, trará alguns avanços para as escolas indígenas. Materiais didáticos em língua guarani ou não, quando existentes são insuficientes para os processos de ensino”, ressaltam.

Pode-se constatar também, durante as entrevistas, que outro problema encontrado pelos professores indígenas iniciantes, diz respeito as resistências dos próprios alunos indígenas, os quais preferem os professores não indígenas ao invés dos indígenas.

Os apontamentos abrem espaço para que escolas indígenas e universidades discutam projetos de formação continuada voltados para esses profissionais, para que as barreiras sejam superadas. “A pesquisa demonstrou que, além das dificuldades comuns a todos docentes iniciantes, os professores indígenas iniciantes, enfrentam outros desafios e que apesar das dificuldades mantem uma percepção positiva da profissão”, concluem as autoras, Andréia Militão e Queila da Silva.

 

Para conferir o estudo completo, acesse: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/campo/article/view/8279