Programa de extensão da UEMS/Amambai publica livro sobre os direitos das mulheres indígenas

Por: Liziane Zarpelon | Postado em: 08/11/2019

O livro Kunha Remopu'a organizado pelas professoras Célia Maria Foster Silvestre, Veronice Lovato Rossato e Lauriene Seraguza; é o resultado de um conjunto de ações desenvolvidas pelo Programa de Extensão “Ojapo Tape Oguata Hina: se faz caminho ao andar” da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), unidade de Amambai. O projeto foi desenvolvido com recursos do convênio PROEXT/MEC/UEMS 2015.

Foram impressos 2.500 exemplares que serão distribuídos nas escolas indígenas no início do próximo ano letivo. Parte dos exemplares foi entregue e ficará à disposição para a comunidade universitária nas bibliotecas das 15 unidades da UEMS e também na biblioteca da UFGD – Universidade Federal da Grande Dourados.

O programa contou com a contribuição de muitas pessoas vinculadas a várias instituições e coletivos, como: UFGD, representantes da Kuñangue Aty Guasu (movimento de mulheres kaiowá e guarani) e representantes do Movimento de Professores Guarani e Kaiowá, Coordenadoria de Políticas Públicas para Mulheres do Município de Amambai.

A concepção do Programa de Extensão foi em 2013, motivada pela existência de uma linha de financiamento para ações de extensão na Universidade, edital PROEXT/MEC. O objetivo principal era obter recursos para ações desenvolvidas com estudantes kaiowá e guarani na universidade e nas aldeias, promovendo um conjunto de ações voltadas para as temáticas de gênero, direitos e superação das violências contra as mulheres.

A professora Célia organizou a obra no período de junho a outubro de 2019, estando em Coimbra, Portugal, onde se encontra desde junho realizando estágio pós-doutoral, junto ao Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra. O estágio pós-doutoral da professora é supervisionado pelo Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos e tem o objetivo de aproximar a percepção e experiências de luta por direitos dos Kaiowá e Guarani das Epistemologias do Sul, área teórica desse sociólogo reconhecido mundialmente.

Desenvolvimento da obra

Livro capa e contra capa

Segundo a professora Célia, quando o projeto começou a ser elaborado a discussão a respeito da violência contra as mulheres indígenas ainda tinha pouca repercussão.

“ Ganhava ressonância a discussão a respeito da demarcação de terras, vista como um direito primordial, ou seja, como um direito a partir do qual os demais acontecem. As mulheres, nos últimos anos, juntaram suas vozes para reivindicar o direito aos seus territórios, mas também denunciam as violências de vários tipos que sofrem, dentro e fora dos territórios”, explica.

A Kuñangue Aty Guasu, grande assembleia de mulheres kaiowá e guarani, tem se dedicado a esse tema como uma das grandes pautas que fazem parte de suas preocupações.

Os textos presentes no livro foram construídos a partir de reflexões e depoimentos produzidos pelas mulheres kaiowá e guarani e por mulheres não indígenas que com elas convivem. E também a partir de conversas gravadas durante as Kuñangue Aty Guasu de 2017 e 2018.

A professora Célia ressalta também que uma das características da atuação política das mulheres kaiowá e guarani é que elas falam em termos de coletivo, para além do individual. “As pautas delas dizem respeito a todo o contexto político que envolve o povo, o contexto histórico de expropriação e passam pela temática da educação, da saúde, do território, do ambiente, da formação dos jovens, pela violência que vem de fora e aquela que está dentro, também. Os direitos humanos das mulheres estão relacionados ao todo da vida humana”, esclarece.

Um dos depoimentos presente no livro é o da Janete Alegre, liderança kaiowá e guarani, que explica o que é ser mulher kaiowá e guarani.

“ Ser mulher Kaiowá e Guarani é ser tudo. A gente abrange tudo. Não tem como ser uma parte, só. Ela, a mulher, resiste, sofre; ela passa por vários processos. É como se fosse a terra, a natureza. Eu me identifico assim: como os rios que hoje estão se poluindo e da mesma forma como se fosse meu corpo, as veias do meu corpo. E ao mesmo tempo, a natureza. O desmatamento... muitas ervas estão desparecendo, estão morrendo. Eu sou tudo. Eu não posso falar o que sou.... Eu sou a mãe. O que estão fazendo com a constituição e o agravamento das condições do planeta está me ressecando, está me matando. Está matando a vida que eu estou querendo construir. Ao mesmo tempo, ser mulher ... eu sou a terra. A terra é uma coisa que você rega, que você cuida. Eu preciso de saúde. E como a terra está se ressecando, me identifico com ela. Estou me ressecando, não tenho mais nutrientes. Estou praticamente sem vida. Estou vivendo por viver. Não sei mais o que fazer. Por isso a gente resiste, apesar de tudo, com as rezas, com as orações. Algo que ninguém mais vê, mas que é algo profundo”, finaliza. (Texto com informações da Professora Célia)

Sobre as professoras:

  • Célia Maria Foster Silvestre: Docente da UEMS, atuando na Licenciatura em Ciências Sociais e na Pós-Graduação, coordenadora do Programa de Extensão até o início de 2019, atualmente em estágio pós-doutoral no Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal.
  • Veronice Lovato Rossato: Professora de Ensino Fundamental e Médio, alfabetizadora, bacharel em Comunicação Social/ jornalismo; especialista em jornalismo; licenciatura plena em Redação e Expressão/Língua Portuguesa; mestrado em Educação. Atua na docência da Educação Básica e, principalmente, com formação de professores indígenas. Também assessorou organizações indígenas, particularmente, o Movimento de Professores Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul. Assessora a elaboração e edição de materiais indígenas em língua guarani, produzidos por professores destas etnias.
  • Lauriene Seraguza: Antropóloga, doutoranda em Antropologia (USP).  É pesquisadora vinculada ao Grupo de Pesquisa Etnologia e História Indígena (UFGD), Centro de Estudos Ameríndios (USP) e bolsista FAPESP.

Anexos: