Setembro Amarelo: Saúde mental e suicídio em tempos de pandemia

Por: Gisleine Rodrigues | Postado em: 08/09/2020

As ações do Setembro Amarelo continuam na UEMS, entrevistamos o psiquiatra doutor em saúde mental pela UFRJ, pesquisador do Mestrado Profissional em Saúde da Família e Comunidade da UFMS, professor do Curso de Medicina da UEMS, André Barciela Veras, para falar sobre o tema saúde mental e suicídio em tempos de pandemia:

 

UEMS: Temos tido uma vida completamente avessa às expectativas que a sociedade tinha pra esse ano de 2020. Fala-se muito que esse momento propiciou que as pessoas fiquem cada vez mais frágeis emocionalmente. Qual é a realidade desse cenário?

ANDRÉ VERAS: É uma experiência, para a maioria das pessoas, do ano que não aconteceu, de muitas frustrações e perdas. Então, é um período que testa os limites do psiquismo, da capacidade de lidar com situações estressantes, pois, geralmente, o ser humano tende a economizar energia psíquica, inserindo-se em uma rotina e executando planos relativamente previsíveis. Alguns pontos se destacam: primeiro, hoje se vive um bloqueio para muitos desses planos que dão ânimo às pessoas e produzem desejo nesse mundo, e segundo, num contexto que produz a constante revisão dessa rotina, acaba que se gasta muito mais energia psicológica para lidar com essas situações e problemas do cotidiano.

Parecida com qualquer outro recurso natural, a energia psíquica também tem limite, e o cenário que vivemos, de constante revisão dos planos de vida, tem levado a maioria dos indivíduos a testar os limites de sua organização psicológica como um todo, sendo esse o desafio.

 

UEMS: Qual o percentual de aumento da procura por atendimentos psicológicos e psiquiátricos que se instalou durante a Pandemia? O que as pessoas procuram no consultório?

ANDRÉ VERAS: Devido a pandemia a quantidade finita de recursos do sistema de saúde está voltada ao atendimento prioritário da Covid-19 e o acesso das pessoas para outras demandas, até pelas limitações de convívio social, está ficando para depois da pandemia. Mesmo pacientes que já estavam em tratamento com seu médico especialista antes desse período não têm conseguido frequência no atendimento, ora porque o profissional é do grupo de risco, ora porque está deslocado para outro atendimento.

Não conseguimos definir um percentual, entretanto, é possível identificar aumento nos consultórios do número de pessoas que nunca haviam procurado ajuda no campo psiquiátrico, além da dificuldade que os pacientes antigos tem enfrentado com instabilidade e crises mais acentuadas.

Em acréscimo a esse cenário está o fato de que os tratamentos psicoterápicos que poderiam estar em fase de diminuição da medicação ou alta médica, tiveram seus planos de tratamento suspensos, pois tanto médico quanto paciente concordam em não executar tais ações nesse momento.

 

UEMS: São muitas as pessoas fragilizadas com o momento que vivemos, com a perda de empregos, a privação do convívio social, perda de entes queridos com Covid-19. Do ponto de vista mental como as famílias podem lidar com a situação?

ANDRÉ VERAS: Esse é um momento de frustrações dos projetos de vida e de algumas rupturas de vida. Querendo ou não muitos de nós conhece alguém que viveu a perda de um ente querido com Covid-19, e o sofrimento decorrente da perda é muito significativo, até pelo contexto amplia sua gravidade, com cada um vivendo o seu processo de luto. Em termos de recomendação, é importante estar atento a si mesmo e às pessoas ao redor que estão passando por esse processo de luto, porque apesar do luto ser um processo natural não significa que as pessoas devam encará-lo sozinhas.

É necessário que se procure apoio com os recursos que cada pessoa tem, quer sejam eles recursos sociais, nos relacionamentos interpessoais, ou os recursos de saúde, principalmente no campo das psicoterapias (com psicólogos) e, em situações mais difíceis, na psiquiatria.

 

UEMS: O quanto a pandemia tem influenciado na busca das pessoas pelo suicídio? Pode-se afirmar que ela escancarou debilidades emocionais já existentes?

ANDRÉ VERAS: Sobre a sua influência não conseguimos medir esse período em termos de estatística, pois as ações de saúde estão concentradas na Covid-19.

Nesse mês, que se destaca a prevenção do suicídio, no debate do assunto é preciso que as ações de conscientização ajudem as pessoas a compreenderem o suicídio de uma forma empática e a identificarem as situações para que, mediante encaminhamento a atendimento profissional, possa prevenir de forma correta. Mas, temos que nos ater a esse assunto para que não seja visto e nem tratado de modo banal ou mesmo natural, porque não é, e se for encarado dessa forma pode contribuir para o aumento da ocorrência de suicídios.

Se por um lado, pode ser que nesse momento de pandemia a situação do suicídio seja mais preocupante, por outro, à semelhança de um período de guerra, a sociedade pode estar vivendo um cenário de agregação comunitária, onde as pessoas unem esforços em torno de se ajudarem nos problemas decorrentes das dificuldades econômica, de saúde, o que, em situações excepcionais, reduz as ocorrências de suicídio pela colaboração mútua entre as pessoas, logo temos esses dois cenários possíveis.

Um momento que pode ser mais preocupante é o posterior à resolução da pandemia, onde as pessoas precisam retomar suas linhas de vida, com muitas delas fragmentadas e deterioradas a pessoa pode se ver sem saída, portanto temos que nos ater a essa possibilidade também.

 

UEMS: Existe um contexto severo de depressão por trás de muitas vidas ceifadas, portanto é possível entender que a pessoa não quer tirar sua vida, mas sim acabar com sua dor emocional, que pra ela é insuportável?

ANDRÉ VERAS: Na maioria das vezes o suicídio está ligado a trajetória de depressão, ainda que não seja exclusivamente relacionado com isso. Ele corresponde a um desfecho trágico para essa trajetória, está intimamente ligado ao fato de a pessoa perder sua linha de vida, sua esperança e não enxergar possibilidades de direções para a retomada da sua linha de vida.

Mesmo diante de sofrimentos muito intensos, onde a pessoa entende que esgotou todas suas conexões com a vida, é possível resoluções e saídas de tratamento para que o suicídio não seja uma via de desfecho.

 

UEMS: Há estudos psicoterápicos que afirmam que o ser humano precisa encontrar o sentido da sua vida, ainda mais em meio ao sofrimento, o que fica evidente na frase "Quem tem por que viver suporta quase todo como", o quanto essa forma de enxergar a vida pode ajudar uma pessoa na prevenção do suicídio?

ANDRÉ VERAS: O ser humano, de modo geral, é estruturado pela neurose, sendo assim muitos tem alguma caraterística neurótica que afeta suas emoções. De fato, o homem precisa de algumas coisas que o liguem a vida, e essas coisas são as nossas construções de vida, como a construção afetiva na criação de filhos, na relação com netos e a construção de uma vida profissional ambiciosa.

Uma ruptura com a identidade construída pelo indivíduo ao longo da vida, ou mesmo opções precárias de estabelecer novamente suas construções, leva a pessoa a uma desconexão com o ânimo da vida, num estado depressivo.

Além das construções de vida, é fundamental que as pessoas neuróticas (aqui estamos falando do contexto científico sem dar margem para uma compreensão pejorativa), tenham um plano de vida, e se hoje não enxergam esse plano, com tratamento profissional psicoterápico e psiquiátrico, e com o apoio de uma comunidade empática podem restabelecer sua linha de vida, alcançando o que nós, humanos, entendemos como a necessidade psicológica de integrar nossa existência a um determinado sentido.

 

A PREVENÇÃO: ONDE ENCONTRAR AJUDA?

Se você ou alguém que conheça está tendo problemas relacionados à saúde mental, até mesmo possui pensamentos suicidas, busque ajuda. Os acompanhamentos médicos e psicológicos são as maneiras mais eficazes de tratamento.

Existe saída, e demonstrar que as pessoas não estão sozinhas aliado ao auxílio profissional são os primeiros passos a serem tomados.

Um lugar que faz a diferença na vida de muitas pessoas é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que atende no telefone 188, e a é ligação gratuita. O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

A UEMS disponibiliza o Serviço de Atendimento Psicológico ao corpo discente que, durante a pandemia, está sendo realizado online. Para solicitar agendamento, é necessário enviar um e-mail para atendimentopsicologico@uems.br , informando o RGM (Registro Geral de Matrícula) e a Unidade Universitária à qual o estudante está vinculado.