UEMS/Jardim: convidada do DITEFRON concede entrevista sobre a presença negra na produção da cidade

Por: Gisleine Rodrigues | Postado em: 14/07/2020

Intervenção urbana em bairro popular de Campo Grande/MS

O Grupo de Pesquisa Dinâmicas Territoriais e Espaços Fronteiriços (DITEFRON) do Curso de Geografia da Unidade Universitária de Jardim, realizou de forma remota a quarta rodada de entrevistas temáticas, com o tema as cidades e as expressões espaciais das relações raciais, a convidada da vez foi GABRIELA LEANDRO.

Gabriela Leandro é professora dos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA). É integrante do Grupo de Pesquisa Lugar Comum, no qual coordena o projeto Grupo de Estudos Corpo, Discurso e Território. Sua tese de doutorado, intitulada “Corpo, discurso e território: a cidade em disputa nas dobras da narrativa de Carolina Maria de Jesus“, foi premiada em 2017 pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR) e incorpora a questão racial às discussões de gênero e do urbano a partir dos escritos de Carolina Maria de Jesus.

 

DITEFRON: Como você está atravessando esse momento excepcional?

GABRIELA: Novos arranjos tecnológicos, domésticos, acadêmicos têm afetado sobremaneira a gerência do tempo no cotidiano. Estou tentando entender a dinâmica desse novo momento, seus termos, conciliando preocupações com reflexões, etc.

 

DITEFRON: Dados da Secretaria de Vigilância do Ministério da Saúde apontaram que o vírus é mais letal entre a população negra. O que a pandemia escancarou em relação a reprodução social de negras e negros no Brasil?

GABRIELA: A pandemia da COVID-19 que, inicialmente, foi até apressadamente difundida como democrática, foi aos poucos reafirmando as desiguais condições de habitabilidade da população negra na cidade. Em sociedades multirraciais, pós-coloniais e fundadas no escravismo, como a nossa,  o dispositivo da racialidade - como elabora a filósofa Sueli Carneiro - é mobilizado produzindo políticas de vida e morte, nas quais a negritude está inscrita sob o signo da morte, enquanto a branquitude sob o signo da vitalidade. A negligência com a vida negra é uma das formas como a política de morte opera. Negligência do Estado em fornecer infraestrutura adequada (acesso à saneamento básico, água, esgoto), em prover equipamentos e serviços públicos nos territórios periféricos, que são territórios majoritariamente negros, nas condições sucateadas de acesso à mobilidade urbana e no direito à moradia nunca efetivado. Enfim, é a população negra que arca com a maior parte do ônus dessa situação atual.

 

DITEFRON: A COVID-19 parece que deixou a casa grande e se instalou na senzala. O novo coronavírus ainda circula intensamente nas periferias urbanas e interioranas do território brasileiro. Mas, paralelamente, as medidas de isolamento foram relaxadas e o convite às ruas está feito. A população negra continuará ainda mais exposta. Como a leitura do espaço da cidade pode revelar as condições de vida e morte de grupos atingidos pela precariedade?

GABRIELA: Boa parte da população negra nunca saiu das ruas. Seja porque ocupa postos de trabalhos precários, mas que são essenciais para a engrenagem urbana funcionar, seja porque o Estado falha em prover soluções e suporte à população das periferias, favelas, comunidades, ocupações. Sem falar nos trabalhadores que servem à “casa grande” mais diretamente, como trabalhadoras domésticas, cuidadoras, babás, motoristas, zeladores e porteiros de prédios, dentre outras funções desempenhadas. Ainda assim, o convite ao retorno agrava ainda mais o quadro. As condições de retorno implicam no deslocamento, acesso à transporte público sem possibilidade dos cuidados de distanciamento, sem garantia de reabertura segura de creches e escolas públicas ou privadas, que implica sobremaneira no retorno das mães às suas atividades profissionais. Além do risco do contágio no retorno às comunidades pós contato com número significativo de pessoas, seja no deslocamento ou no próprio ambiente de trabalho.

DITEFRON: Ágatha Félix, João Pedro, Guilherme Guedes. Estes são alguns dos nomes de crianças e adolescentes que tiveram a sua presença negra brutalmente gerida para a morte na cidade e, consequentemente, de suas coletividades. Como problematizar a produção do espaço urbano e a presença-ausência da população negra nessa dinâmica?

GABRIELA: O espaço urbano de nossas cidades está inserido na mesma lógica de violência e subjugação de determinadas vidas que incidem sobre nossa história social, política, econômica e cultural. Se por um lado o Estado é negligente na provisão de equipamentos, infraestruturas, soluções urbanas que viabilizem a vida digna na cidade, ele é muito ágil em promover políticas de morte. Como bem aponta a socióloga  e ex-ouvidora da defensoria pública da Bahia, Vilma Reis, em sua dissertação de mestrado intitulada “Atucaiados pelo Estado”, nos bairros populares estão naturalizadas as relações historicamente violentas entre o Estado e a população civil. Falando especificamente da polícia baiana (mas acho que podemos ampliar essa reflexão para além de uma análise regional), Vilma Reis, aponta três elementos básicos articulados dessa violência: (1) o racismo institucional; (2) o filtro racial (que permite uma atuação policial de suspeição); (3) a cegueira racial escondida atrás do discurso “técnico” que respalda as violações de direitos contra a população negra forjada por argumentos como o fato desse segmento constituir a maioria da cidade (eximindo então a orientação deliberada de criminalizá-la). Tais políticas genocidas não são replicadas em bairros de maioria branca, por exemplo. Não há como se furtar de uma leitura que é territorialmente constituída a partir de premissas informadas pela racialidade e pela eleição de territórios nos quais se confere valor menor ou insignificante à determinadas vidas.

 

DITEFRON: Em recente artigo, você fala sobre a importância de refletir a cidade e seus marcadores raciais. Qual o potencial analítico desses marcadores sociais no debate do direito à cidade?

GABRIELA: Na minha opinião, não há direito à cidade que se realize apartado da luta antirracista. Negligenciar analiticamente a implicação da racialidade nas dinâmicas e processos que operam na cidade é ser conivente com os movimentos que nos trouxeram até aqui. A escravização como paradigma e o racismo como dispositivo, informam muito e ainda sobre as violências coloniais atualizadas pelo capitalismo e que são constituidoras da própria cidade. Uma consciência abolicionista é preciso emergir do campo dos estudos urbanos e não é viável que isso aconteça sem a construção de lentes analíticas que deem conta de abarcar o evento racial em sua complexidade e afetação nas estruturas urbanas.


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