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FORMAÇÃO DISCURSIVA, REDES
DE MEMÓRIA E TRAJETOS SOCIAIS DE SENTIDO: MÍDIA E PRODUÇÃO DE IDENTIDADES
Maria do Rosário GREGOLIN
(mrgregolin@uol.com.br)
Universidade Estadual Paulista (UNESP), Araraquara, SP.
[é
necessário] aceitar se confrontar com essa memória sob a história que sulca
o arquivo não escrito dos discursos subterrâneos. O interesse desse
heterogêneo discursivo, feito de cacos e de fragmentos, é que ele permite
recuperar as condições concretas da existência das contradições através das
quais a história se produz, sob a repetição das memórias estratégicas.
(Michel Pêcheux, O estranho espelho da Análise do Discurso, 1981)
1. Para uma história conceitual da FD
O conceito
de formação discursiva (FD) é um lugar teórico que torna visível
a relação entre Michel Pêcheux e Michel Foucault na construção da teoria e
análise do discurso. Discutindo as mudanças nesse conceito no interior da
“análise do discurso de linha francesa”, Guilhaumou (2002) afirma que ele
“produziu mais efeitos sobre o devir da Análise do Discurso do que qualquer
outra noção desse campo de pesquisa” pois faz parte das suas categorizações
fundamentais.
O
objetivo deste meu texto é retomar o percurso dessas transformações do
conceito de FD, a partir de um aspecto particular da sua história conceitual
que envolve dialeticamente as regularidades e as instabilidades dos
sentidos. Centrados nessa articulação entre sistematicidade e dispersão, os
desenvolvimentos do conceito de FD mostram que a aproximação entre Pêcheux e
Foucault se dá na direção de uma idéia cada vez mais forte de
heterogeneidade. Essas transformações estão tematizadas em vários
trabalhos de Pêcheux, especialmente naqueles posteriores a 1980, nos quais
ele produz deslocamentos e abre várias perspectivas para rediscussão: as
redes de memória, os trajetos sociais dos sentidos, as materialidades
discursivas, enfim, a articulação entre FD, memória e história. Essas
transformações no conceito de FD se refletem na modificação do corpus,
e deriva da necessidade de a AD ampliar seus objetos de análise, incorporar
discursividades que envolvem o verbal e o não verbal e a sua circulação na
sociedade do espetáculo midiático. Tomando esse agenciamento
conceitual, proponho pensar a produtividade desse conceito de FD na análise
do papel da mídia na espetacularização dos efeitos de sentido, a partir da
instauração de trajetos temáticos que evidenciam a construção discursiva da
identidade. Assim, este meu texto pretende ser, ao mesmo tempo,
epistemológico e aplicativo, pois quero pensar sobre a história do conceito
de FD e aplicá-lo na análise de alguns textos que (re)configuram certos
trajetos de sentido e constituem práticas discursivas identitárias na mídia.
2. Formação Discursiva: um pólo conceitual entre
a sistematicidade e as instabilidades
O conceito de FD
é central para o desenvolvimento do edifício teórico da AD. Ele sinaliza a
constante refacção a que a teoria do discurso foi submetida na obra de
Pêcheux, já que, por meio das reconfigurações desse conceito, ele trabalha a
linha tênue entre a regularidade e a instabilidade dos sentidos no discurso.
A
definição canônica de 1971 (HAROCHE, HENRY, PÊCHEUX)
demarca zonas de regularidades discursivas, na medida em que estabelece
relações entre as Formações Ideológicas
e sua existência material nas Formações Discursivas. Nesse momento
inaugural da teoria, as FDs são consideradas como componentes de FIs,
relacionadas às suas condições de produção no interior de uma realidade
social marcada pela ideologia dominante. O sentido é, portanto, relacionado
a um exterior ideológico demarcado por FIs.
A
primeira reformulação do conceito de FD aparece em
Semântica e Discurso
(1975; 1988) e constitui um grande momento de teorização de
mudanças: propondo uma teoria materialista do discurso (1988, p.
91-94) Pêcheux acentua o fato de que é sobre a base lingüística que se
desenvolvem os processos discursivos, mas, ao mesmo tempo, todo processo
discursivo se inscreve numa relação ideológica de classe fundada pela
contradição. A reflexão sobre esse caráter contraditório e
desigual leva Pêcheux a retomar o conceito de FD do texto de 1971 e
acrescentar a ele a discussão sobre a materialidade do interdiscurso,
isto é, o fato de que toda FD dissimula, pela transparência do sentido que
nela se constitui, sua dependência com respeito ao “todo complexo com
dominante”
das formações ideológicas (1988, p. 162). A instabilidade e a
heterogeneidade das FDs tornam mais complexa a tarefa do analista de
discurso, já que, a partir de então, “é preciso poder explicar o conjunto
complexo, desigual e contraditório das formações discursivas em jogo numa
situação dada, sob a dominação do conjunto das formações ideológicas, tal
como a luta ideológica das classes determina.” (PÊCHEUX, 1988, p. 254).
A
teorização da instabilidade das FDs envolve, principalmente, dois pontos que
são decisivos para o refinamento da teoria e análise do discurso em Pêcheux:
a)
A relação entre FD e interdiscurso:
"o próprio de toda FD é dissimular, na transparência do
sentido que aí se forma (...) o fato de que isso “fala’ sempre, antes, fora,
ou independentemente (...)” (PÊCHEUX,
1988, p. 147), o que significa que os sentidos, no interior das FDs, estão
sob a dependência do interdiscurso. Em outras palavras, o
interdiscurso é o lugar em que se constituem, para um sujeito que produz uma
seqüência discursiva dominada por uma FD determinada, os objetos de que esse
enunciador se apropria para fazer deles objetos de seu discurso, assim como
as articulações entre esses objetos, por meio das quais o sujeito enunciador
dará coerência a seu propósito no interior do intra-discurso, da
seqüência discursiva que ele enuncia. Essa formulação será aprofundada por
Courtine (1981);
b) A relação entre intradiscurso e interdiscurso: é na
relação entre o sistema da língua (base comum de processos discursivos
diferenciados) e a FD (aquilo que determina o que pode e deve ser dito, em
uma determinada formação ideológica, a partir de uma posição dada em uma
conjuntura dada determinada pelo estado da luta de classes) que se realizam
as práticas discursivas, os processos discursivos diferenciados, por meio
dos quais os sujeitos produzem e reconhecem os sentidos na história.
Entretanto, essa relação entre o intra e o interdiscursivo não é direta nem
homogênea já que
“as fronteiras entre o
lingüístico e o discursivo são constantemente deslocadas em toda prática
discursiva, razão pela qual as ‘sistematicidades’ não funcionam sob a forma
de um bloco homogêneo de regras organizadas sob a forma de uma máquina
lógica.” (PÊCHEUX, 1975, p. 3)
Na história
conceitual da FD, essa distinção entre língua e processos discursivos é
determinante para o trajeto em direção à heterogeneidade: os processos
discursivos constituem a fonte da produção dos efeitos de sentido no
discurso e a língua, pensada como “relativamente autônoma”, é o lugar
material no qual se realizam esses efeitos de sentido. As fronteiras que
separam aquilo que provém da autonomia relativa da língua e aquilo que
provém da determinação das FDs são instáveis:
todo
discurso ‘concreto’ é determinado duplamente, de um lado, por
formações ideológicas que remetem esse discurso a formações definidas, por
outro lado, pela autonomia relativa da língua; no entanto, sustentamos que
não é possível traçar a priori uma linha de demarcação entre o
que é derivado de uma ou de outra dessas determinações. (HENRY,
1975, p. 94).
Considerando as
FDs cada vez mais instáveis, Pêcheux (1977) proporá que a AD tome como
objeto “as invasões, os atravessamentos constitutivos” da “pluralidade
contraditória, desigual e interiormente subordinada de formações
discursivas”. Assim, a partir de 1977, o primado da heterogeneidade
coloca-se tanto como categoria conceitual quanto em relação ao corpus.
Tomando a FD no interior desse intrincamento, ela não remete mais a lugares
enunciativos pensados como um exterior ideológico e passa a ser buscada na
dispersão dos lugares enunciativos. No plano da constituição do
corpus, a inscrição dos enunciados em um conjunto de formulações – como
um “nó em uma rede” – torna mais complexa a noção de “condições de
produção”, pensada agora como articulação de um feixe de enunciaçõesculaçe
enttez mais a instabilidade das FDs, e nessse efeito discursivo particular,
quando uma formulação..
J. J.
Courtine tem papel central nesse desenvolvimento da noção de FD, na medida
em que ele estimula a interlocução entre a obra de Pêcheux e as propostas de
Foucault.
Esse gesto de releitura das propostas de Foucault, segundo Courtine (1981)
não significa “aplicá-lo” à AD, mas “fazer trabalhar sua perspectiva no
interior da AD”. Courtine propõe pensar a FD como “fronteiras que se
deslocam” e cujo movimento é impulsionado pela memória discursiva. Para
Courtine, essa noção está subjacente às análises realizadas por Foucault em
A Arqueologia do Saber (1969), isto é, a idéia de que toda formulação
possui, em seu “domínio associado” outras formulações que ela repete,
refuta, transforma, nega, enfim, em relação às quais produzem-se certos
efeitos de memória específicos. Trata-se, portanto, de inserir no coração da
noção de FD a problemática da memória cujo trabalho produz a
lembrança ou o esquecimento, a reiteração ou o silenciamento de enunciados.
Articulado a essa tese fundamental do papel da memória, todo um conjunto de
noções foucaultianas é integrado ao conceito de FD (acontecimento,
práticas discursivas, arquivo etc.) fortalecendo a idéia de uma
articulação dialética entre singularidade e repetição, regularidade e
dispersão. Essa problematização institui o território da História como o
campo das FDs. Isso torna possível enxergar, na dispersão de enunciados,
certas regularidades nos acontecimentos discursivos, pois toda a massa de
textos que pertencem a uma mesma FD insere-se em um campo em que podem ser
estabelecidas identidades formais, continuidades temáticas, translações de
conceitos, jogos polêmicos, segundo regras específicas das práticas
discursivas de um certo espaço e tempo. Dessa trama decorre o fato de que,
desde sua raiz, o enunciado se delineia em um campo enunciativo onde tem
lugar e status, que lhe apresenta relações possíveis com o passado e
que lhe abre um futuro eventual, isto é, que o insere na rede da História e,
ao mesmo tempo, o constitui e o determina.
Em
Lecture et Mémoire: Project de Recherche (1981),
Pêcheux apresenta uma síntese das perspectivas que se abriam nesse momento
para a análise do discurso. Ao estabelecer as bases epistemológicas desse
projeto, ele deixa clara sua aproximação com a “nova história” e com
Foucault.
Primeiramente, Pêcheux propõe tratar do “estatuto social da memória como
condição de seu funcionamento discursivo na produção e interpretação
textual”. Fortemente ancorada nas formulações dos Annales (Phillipe
Ariés, Pierre Nora e Jacques Le Goff), a memória é entendida como “conjunto
complexo, pré-existente e exterior ao organismo, constituído por uma série
de ‘tecidos de índices legíveis’, que constitui um corpo sócio-histórico de
traços”. Pêcheux ressalta que o que se entende por “conjunto de traços e
pistas” pode ser aproximado daquilo que se chamou de “ideologia” ou
“universo de representações e de crenças”. Essas redefinições levam à
incorporação de alguns novos pólos temáticos: a heterogeneidade
associa-se à idéia da alteridade (“presença do discurso do outro como
discurso de um outro e/ou discurso do Outro”), as relações entre
intradiscurso e interdiscurso passam a serem buscadas nos
vestígios da memória discursiva.
Tensionada
pela memória, a FD incorpora, cada vez mais, a instabilidade e a dispersão
dos sentidos que serão radicalizadas, no último texto de Pêcheux (Discurso,
estrutura ou acontecimento?, 1983) a partir das noções de “deriva”,
de “desestruturação-reestruturação das redes e trajetos” que fundam a idéia
de que “todo discurso é um índice potencial de uma agitação nas filiações
sócio-históricas”, um “trabalho de deslocamento” (PÊCHEUX, 1990, p. 56-57).
A percepção dessa instabilidade leva a Pêcheux (1983; 1997) a questionar o
próprio estatuto teórico e heurístico da noção de FD:
Assim,
a insistência da alteridade na identidade discursiva coloca em causa o
fechamento dessa identidade, e com ela a própria noção de maquinaria
discursiva estrutural ... e talvez também a de formação discursiva. (1997,
p. 315)
Incorporando essa instabilidade radical, Pêcheux procura dar respostas (em
termos políticos e analíticos) a um momento histórico em que se instalava a
“sociedade do espetáculo midiático”. Sua análise da movimentação discursiva
em torno do enunciado “on a gagné” (1983; 1999) oferece valiosas pistas para
pensarmos o valor heurístico desse conceito de FD que se associa à dispersão
das redes de memória e dos trajetos sociais dos sentidos. Tomando o trabalho
discursivo realizado pela mídia sobre o acontecimento (a vitória de
Mitterand) – “em sua atualidade e no espaço de memória que ele convoca e já
começa a reorganizar” – Pêcheux mostra o jogo entre transparência e
opacidade produzido pela retomadas, deslocamentos e inversões de formulações
que resultam em uma “espetacularização da política”. Essa nova formulação da
FD acompanha, portanto, a mudança no contexto histórico, os meios
tecnológicos de difusão e circulação dos discursos que se tornam
indissociáveis dos enunciados não verbais e dos suportes materiais que os
sustentam, isto é, dos novos regimes de discursividades instaurados pelos
meios de comunicação de massa.
4.
Formação discursiva, redes de memória, trajetos sociais de
sentido: mídia e produção de identidades
Certos discursos
que circulam na mídia contemporânea produzem uma rede simbólica que forja
identidades a partir de uma “estética de si” (FOUCAULT, 1994; 1995). São
práticas discursivas que constituem verdadeiros dispositivos identitários e
produzem subjetividades como singularidades históricas a partir do
agenciamento de trajetos e redes de memórias.
O arquivo
de um momento histórico se constitui em “horizontes de expectativas” e um
acontecimento discursivo realiza algumas das suas possibilidades temáticas.
O que torna possível a compreensão desses feixes de sentidos é a existência
de trajetos temáticos, isto é, um conjunto de configurações textuais
que, de um acontecimento a outro, articula os temas e opera o “novo na
repetição” (GUILHAUMOU E MALDIDIER, 1986, p. 45). Em termos analíticos, o
trajeto temático permite visualizar, no interior da dispersão do arquivo,
momentos de regularidade, de sistematicidades que - embora instáveis –
permitem a inteligibilidade de certas escolhas temáticas num dado momento
histórico.
Mais do que uma forma geral ou o “espírito de uma época”, os trajetos
temáticos são feixes de relações e de deslocamentos. É o que procurarei
mostrar numa breve análise de discursos midiáticos sobre o “casamento”, a
seguir.
Em 1977, momento
de implantação da lei do divórcio, os sentidos sobre o “casamento” são
instáveis, no Brasil. Em muitas práticas discursivas da mídia brasileira, o
tema é objeto de enunciados polêmicos que fazem deslizar sentidos
tradicionalmente assentados. Essa polêmica coloca em confronto diferentes
FDs a partir do agenciamento coletivo das enunciações, produzindo trajetos
temáticos que reiteram ou polemizam as relações e os papéis masculinos e
femininos:





(Campanha publicitária. Agência Salles, 1977)
Para fazer
deslizar os sentidos, os textos acionam redes de memória: o kitsch da
canção popular
no texto da propaganda 1; a divisão do trabalho doméstico nas propagandas 2
e 3; os papéis femininos e masculinos no interior do casamento na propaganda
4.
Esses
deslizamentos produzem efeitos sobre as representações e as identidades
feminina e masculina, instaurando polêmicas e, ao mesmo tempo, fazendo
retornar formulações anteriores. Trabalho da memória, esses enunciados
integram-se a redes de outras formulações e constituem outros trajetos de
sentidos. Tanto que, no início dos anos 2000, vamos encontrar essas
polêmicas aparentemente já estabilizadas e à idéia de “casamento” estão
agregadas outras redes de memória que dão lhe novos sentidos:


No plano visual,
o texto da propaganda 5 afirma um novo conceito de “casamento” e de
“família” nos quais a ruptura já está instalada; entretanto, no plano
verbal, o enunciado “é melhor você começar a ler o Estadão” afirma que o
“novo conceito de casamento” ainda não está consolidado, isto é, ele existe
mas você só saberá disso se “ler o Estadão”. Cruzam-se, aí, o novo e o
velho, mostrando que os sentidos estão sempre à deriva, no entanto, podem
ser compreendidos porque atualizam (isto é, estabilizam/desestabilizam a
memória discursiva).
Isso nos mostra
que a instalação de novas representações não elide a coexistência dos
sentidos tradicionais: como um “nó em uma rede” cada enunciado relaciona-se
com outras séries de formulações, com outros trajetos que se cruzam e
constituem identidades através da reativação da memória discursiva:




Na propaganda 6,
o enunciado verbal (“Quando você escolhe um Volkswagen é para sempre”)
retoma o tema da indissolubilidade do casamento; no plano visual, a
metonímia figurativa relembra a cena da “troca das alianças” do casamento
religioso – vaga lembrança, pois a aliança foi substituída pela chave do
carro (oferecida pela mão masculina). Cruzam-se, nessa síntese visual, o
religioso e o econômico. E se há o retorno de um conceito tradicional de
casamento (com toda a rede simbólica que ele aciona), ao retornar, o
casamento já não é mais o mesmo porque outras formulações cruzaram o seu
caminho.
Essa
heterogeneidade também aparece na propaganda 7 que restaura, na cena do bolo
canônico, vários trajetos de sentidos tradicionalmente associados ao
“casamento” (as vestimentas e a ornamentação, com todos os valores
simbólicos a elas relacionados). O elemento cômico – noivas escalam esse
bolo tão metafórico, enquanto a noiva, no alto do bolo segura firmemente o
noivo, defendendo-o e defendendo-se – nada tem de transgressor; pelo
contrário, re-afirma papéis associados ao feminino e remete à idéia do
casamento como conquista, como vitória sobre outras mulheres (além, é claro,
de dizer que as mulheres querem, de qualquer maneira, se casar). Trata-se de
uma síntese figurativa de recitação de um mito que forja a identidade
feminina envolvida nessa luta em que casar-se é o grande objetivo, o prêmio
da competitividade. E o podium é um frágil bolo coberto de glacê...
5. Fazer análise
de discursos: descrição-interpretação
Analisar discursos a partir do acontecimento
discursivo, em sua heterogeneidade – isto é, considerando que as FDs são
complexas pois os sentidos são instáveis, impõe um certo número de
exigências teórico-metodológicas (PÊCHEUX, 1983; 1997):
a.
É
necessário priorizar a descrição das materialidades discursivas:
a análise de discurso precisa realizar uma descrição que tenha como
pressuposto a propriedade fundamental da linguagem, isto é, o fato de que
ela é constitutivamente atravessada pelo equívoco, pela falha e, portanto, é
preciso descrever o jogo de diferenças, as alterações, as contradições, a
equivocidade, a “heterogeneidade constitutiva” (J. Authier). Ao acatar essa
característica fundamental, a AD é obrigada a construir procedimentos (modos
de interrogação de dados e formas de raciocínio) capazes de abordar
explicitamente “o fato lingüístico do equívoco como fato estrutural
implicado pela ordem do simbólico”, e a trabalhar “no ponto em que cessa a
consistência da representação lógica” (PÊCHEUX, 1997, p. 51). Os discursos
são atravessados por uma divisão entre dois espaços discursivos: a) o da
manipulação das significações estabilizadas, normalizadas; b) o das
transformações do sentido. A fronteira entre esses dois espaços é muito
difícil de determinar. Há uma zona intermediária de processos discursivos
(que deriva do jurídico, do administrativo e das convenções da vida
cotidiana) que oscilam em torno dela: nessa região discursiva intermediária
os sentidos têm um caráter oscilante (como foi mostrado por Pêcheux na
análise do enunciado
on a gagné
e como tentei mostrar na breve análise dos trajetos do
casamento).
b.
Nas
práticas de análise de discurso, a descrição e a interpretação devem ser
simultâneas, numa espécie de
batimento:
Todo discurso é fundamentalmente heterogêneo e está exposto ao equívoco
porque se relaciona sempre com um
discurso-outro.
A possibilidade de interpretar existe exatamente por causa dessa alteridade
nas sociedades e na história, que possibilita a ligação, a identificação, a
transferência. “E é porque há essa ligação que as filiações históricas
podem-se organizar em memórias, e as relações sociais em redes de
significantes.” (PÊCHEUX, 1997, p.54). Como os sentidos estão
permanentemente inseridos em redes enunciativas, a descrição de um enunciado
coloca necessariamente em jogo (através de implícitos, de elipses, de
negações e interrogações, de múltiplas formas de discurso relatado etc.) o
discurso-outro
como espaço virtual de leitura desse enunciado ou dessa seqüência. Esse
discurso-outro marca, na materialidade discursiva, a insistência do outro
como lei do espaço social e da memória histórica, logo como o próprio
princípio do real sócio-histórico. Por isso, o problema principal, nas
práticas de análise do discurso, é determinar o lugar e o momento da
interpretação, em relação ao da descrição. Não se trata de duas fases
sucessivas, mas de uma alternância ou de um batimento. (PÊCHEUX,
1997, p. 54):
Todo
enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si
mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro
(a não ser que a proibição da interpretação própria ao logicamente estável
se exerça sobre ele explicitamente). Todo enunciado, toda seqüência de
enunciados é, pois, lingüisticamente descritível como uma série
(léxico-sintaticamente determinada) de pontos de deriva possíveis,
oferecendo lugar à interpretação. É nesse espaço que pretende trabalhar a
análise de discurso. (PÊCHEUX , 1997, p. 53).
3. A discursividade é um acontecimento:
não se
deve perder de vista o fato de que o discurso acontece sempre no interior de
uma série de outros discursos, com os quais estabelece co-relações,
deslocamentos, vizinhanças. Por isso, o objeto da AD deve ser essa
interdiscursividade,
as redes de memórias que produzem os sentidos em um momento histórico:
O discurso não é um
aerólito miraculoso, independente das redes de memória e dos trajetos
sociais nos quais ele irrompe (...) só por sua existência, todo discurso
marca a possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes e
trajetos: todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações
sócio-históricas de identificação, na medida em que ele constitui ao mesmo
tempo um efeito dessas filiações e um trabalho (mais ou menos consciente,
deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas
determinações inconscientes) de deslocamento no seu espaço (PÊCHEUX, 1997,
p. 56).
Em
síntese, cabe ao analista de discurso investigar as condições complexas (que
são, ao mesmo tempo, da ordem da linguagem e da ordem da história) nas quais
se realizou um determinado enunciado, condições que lhe dão uma existência
específica. Essa existência faz o discurso emergir em relação com um domínio
de memória, como jogo de posições possíveis para um sujeito, como elemento
em um campo de coexistência, como materialidade repetível.
Referências bibliográficas
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RABINOW, P.; DREYFUS, H. Michel Foucault.
Uma trajetória filosófica.
Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro, Forense
Universitária, p. 231-249, 1995,.
GUILHAUMOU, Jean-Jacques.
Les historiens du discours et la notion-concept de formation discursive.
Récit d’une transvaluation immanente. (no prelo)
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MALDIDIER, D. Effets de l’arquive. L’analyse de discours du cotê de l’histoire.
Langages. Paris, número 81, 1986.
HAROCHE, CLaudine ; HENRY,
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In: GADET, F.; HACK, T. (org).
Por uma análise automática do discurso. Uma introdução à obra de Michel
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PÊCHEUX, Michel.
Discurso. Estrutura ou acontecimento. Campinas, Pontes, 1983; 1999.
HENRY, Paul.
Constructions relatives et articulations discursives. Langages,
Paris, número 37, p. 81-98, 1975.
Texto apresentado no II
Seminário de Análise do Discurso (SEAD), na UFRGS, Porto Alegre,
2005. Uma versão mais sintética foi publicada em CDROM, nas atas do
II SEAD.
“(...) as formações ideológicas comportam, necessariamente, como um
de seus componentes, uma ou mais formações discursivas
interligadas, que determinam aquilo que se pode e se deve dizer
(articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um
panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.) a partir de uma
posição dada em uma conjuntura dada” (HAROCHE, HENRY, PÊCHEUX, 1971,
p. 102-103).
Definidas como “conjunto complexo de atitudes e de representações
que não são nem individuais, nem universais e que se referem mais ou
menos diretamente a posições de classes em conflito umas com as
outras" (HAROCHE, HENRY,
PÊCHEUX, 1971, p. 102).
PÊCHEUX, M. Les Vérités de La Palice.
Paris, 1975.
Conceito desenvolvido por Althusser em sua leitura de Marx em vários
de seus livros e explicitada, em 1975, em seu texto da Defesa da
tese de Amiens: “(...) defendi que Marx tinha uma idéia distinta
de Hegel sobre a natureza duma formação social; e pensei poder
manifestar essa diferença dizendo: Hegel pensa uma sociedade como
uma totalidade, enquanto Marx a pensa como um todo
complexo, estruturado e com uma dominante (...) para marcar que na
concepção marxista duma formação social tudo se relaciona, a
independência de um elemento não é mais do que a forma da sua
dependência, e o jogo das diferenças é regulado pela unidade de uma
determinação em última instância: o todo marxista é complexo e
desigual.” (1977, p. 146-148)
Trata-se, aqui, de afirmação feita por Pêcheux na Introdução da
revista Langages, número 37, 1975.
Essa aproximação também é realizada nos trabalhos dos “historiadores
do discurso” (J. Guilhaumou, Régine Robin, Denise Maldidier etc),
embasando as análises das inter-relações entre a materialidade do
discurso e a História.
Projeto de pesquisa proposto ao CNRS em 1981, publicado em Pêcheux
(1990).
“Os numerosos trabalhos de FOUCAULT sobre a arqueologia textual
fornecem o essencial do quadro de referência da presente
problemática, do ponto de vista da pesquisa sócio-histórica. É a
partir da Arqueologia do saber (FOUCAULT, 1969), que
propõe uma redefinição do documento enquanto monumento e
do enunciado enquanto nó de uma rede, que as perspectivas de
análise do discurso aqui desenhadas podem-se redefinir.”
“(...) todo enunciado é intrinsecamente
suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar
discursivamente de seu sentido para derivar para um outro
(...) pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar à
interpretação. É nesse espaço que pretende trabalhar a análise de
discurso.” (1990, p. 53).
Que serão também tematizados por Pêcheux em O papel da memória
(1982).
Para Foucault (1969), o arquivo representa o conjunto dos
discursos efetivamente pronunciados em uma época dada e que continua
a existir através da história. Fazer a arqueologia dessa massa
documentaria é buscar compreender as suas regras, suas práticas,
suas condições e seu funcionamento. A análise arqueológica propõe
evidenciar os traços discursivos que permitem a reconstituição do
conjunto de regras que, em um momento dado, definem ao mesmo tempo
os limites e as formas da dizibilidade, da conservação, da memória,
da reativação e da apropriação dos sentidos.
Na base dessa formulação está o conceito foucaultiano de FD: “Sempre
que se puder descrever, entre um certo número de enunciados,
semelhante sistema de dispersão e se puder definir uma regularidade
(uma ordem, correlações, posições, funcionamentos, transformações)
entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas
temáticas, teremos uma formação discursiva” (FOUCAULT, 1986,
p.43) .
“Branca e radiante vai a noiva... Logo a seguir, o noivo amado...” (La
novia, canção de Joaquim Pietro, versão de Fred Jorge, grande
sucesso do final dos anos 1950, interpretada por Cauby Peixoto e
Ângela Maria.
Segundo Pêcheux (1997, nota 26, p. 65) esse caráter oscilante do
registro do ordinário do sentido não foi levado em conta nas
primeiras formulações da AD francesa. Esse é um dos pontos fracos da
reflexão althusseriana sobre os aparelhos ideológicos e de suas
primeiras aplicações na AD, pois então se pensava a reprodução dos
sentidos fechada no inferno da ideologia dominante.
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